- "Quanto é?"
- "Três euros e meio."
- "Obrigada!"
Dirigi-me para um lugar vago, onde pudesse descansar e respirar fundo. Sentei-me no meio. Do meu lado direito encontrava-se um jovem africano, talvez da minha idade, com uns olhos muito negros e com uma presença quase subtil.
À minha esquerda estava um senhor mais velho e louro, que de uma forma muito curiosa ia alimentado as pombas – famosas companheiras dos passageiros de Sete Rios - com pipocas depositadas num balde verde e transparente.
Estava ansiosa que chegasse o meu autocarro e por isso ia olhando, de minuto a minuto para o monitor, desejando ver o número 50 e a linha correspondente.
Entre um desses olhares desesperados, ouço uma voz quase silenciosa "olha, posso?"
Não ouvi a primeira intervenção, nem a segunda. Finalmente entendi e respondi com um olhar assustado. Era o meu companheiro do lado direito: "Posso ler o artigo sobre a Al-Qaeda que está nessa revista?" Assenti.
Voltei ao estado de desassossego, enquanto o rapaz interpretava as palavras da página 44 entusiasticamente.
Noto que a certa altura o senhor louro fixa o olhar em mim e pára de alimentar os animais, agora felizes e saciados.
Começa a falar. Presumi que ele fosse de Espanha. Perguntou-me se em português regressar e retornar tinham o mesmo significado. Explicou-me depois que o título utilizado na capa da revista para publicar o tema principal "O Regresso de Al Qaeda", numa perspectiva da língua castelhana estava a ser mal empregue. Regresso utiliza-se para pessoas, e portanto retorno seria mais correcto. Entendi, naquele instante, o motivo que o levou a olhar tanto para mim quando me sentei a seu lado.
Iniciou o diálogo. De Espanhol para portuguesa. Rapidamente cativou o rapaz africano e passados segundos tornámo-nos ambos (jovens) uma espécie de alunos, que assistiam aos ensinamentos do professor. Mostrou ser uma pessoa culta, preocupada, crítica, actualizada, falou-nos das suas revistas de eleição, retirou um Atlas da sua mala e explicou-nos qual a expansão do grupo terrorista anteriormente referido.
Quando dei por mim o autocarro estava prestes a sair da estação.
E tudo isto por três euros e meio.
Revista Currier Internacional
Toda a gente acha que sabe comunicar
Há 1 mês

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